quarta-feira, 5 de março de 2008

aquele - enquanto arrumava as gavetas

Há tempos que eu não desenhava.
E em minhas roupas há tantas listras.
São tantas as listras...
listras coloridas.
Hoje arrumei minhas gavetas,
restam poucos papéis.
E em mim, o que resta?
Li uma carta sua.
A única carta que restou.
E tudo que sobrou da gente está naquelas linhas.
Esquisito isso, não?
E te vejo em pé na calçada
então eu passo... Passo e passo.
Sou apenas um passageiro...
E continuo passando pelas coisas e pelas pessoas.
Queria ler uma das cartas que escrevi a ti
para lembrar-me de quem eu era.
Aceno diariamente para o espelho,
para os diversos reflexos
de quem eu poderia ser.
Quantos eus eu já me despedi antes mesmo
de chegarem?
E há tempos eu não desenhava
e em minhas roupas há tantas listras.
São tantas as listras...
São tantas as listras...
listras descoloridas.

Um comentário:

  1. A pessoa que você era, na época das cartas, é melhor que a existente hoje?

    Eu já disse o que aconteceu quando li esse texto, isso porque ele é dolirido e absurdamente bonito.

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